O Brasil foi mediano na pandemia e aceitar Pfizer em Dez/20 nao faria muita diferença
Este é post sobre dados e modelos. Nao vou falar de políticos, mas somente como o país performou na pandemia, comparacao com pares e como teríamos performado em diferentes ritmos de vacinação. Se voce discorda das minhas conclusões, apresente seus próprios dados e discutiremos normalmente.
Covid no Brasil vs. pares: mortes excedentes, perfil dos países, vacinação e cenários (dados OWID, 2020–2022)
TL;DR
* Mortes excedentes 2020–22: o Brasil teve 380 por 100 mil. Isso é 5% abaixo da média da América Latina, 6% acima da média dos emergentes (sem China) e 42% acima do G10.
* Ajustando por idade, renda, obesidade e outros fatores: o Brasil teve praticamente as mortes esperadas para o perfil dele (previsto: 382).
* Vacinação: começou 3 a 6 semanas depois dos primeiros países. No pico de mortes (mar–jun/21), ficou bem atrás dos países ricos e à frente da média mundial.
* Cenários: vacinando no ritmo do país mais avançado do mundo, o modelo estima ~134 mil mortes a menos. No ritmo das doses que as ofertas de 2020 garantiam, ~58 mil a menos.
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1. Comparação direta
Mortes excedentes acumuladas de jan/2020 a dez/2022, por 100 mil habitantes. São as estimativas centrais da The Economist, publicadas pelo Our World in Data. Tirei a China porque a estimativa dela é muito incerta e a grande onda chinesa veio logo depois de dez/2022.
* Brasil: 380
* Média América Latina (11 países): 402. O Brasil ficou 5% abaixo.
* Média emergentes (24 países): 359. O Brasil ficou 6% acima.
* Mundo sem China: 318. O Brasil ficou 19% acima.
* Média G10: 267. O Brasil ficou 42% acima.
O Brasil fica em 11º entre 24 emergentes e em 7º entre 11 latino-americanos, ordenando da maior para a menor taxa.
* Acima do Brasil: Peru (624), México (544), Bolívia (542), Equador (455), Argentina (419) e Paraguai (392).
* Abaixo: Colômbia (365), Chile (315), Uruguai (225) e Costa Rica (156).
2. Comparando com países de perfil parecido
Comparar taxas brutas mistura países muito diferentes, por exemplo um país jovem e um país velho. Então rodei uma regressão com variáveis estruturais, que já estavam dadas antes de 2020:
* obesidade
* renda (log do PIB per capita)
* % da população com 65+
* diabetes
* desigualdade (Gini)
* leitos por mil habitantes
* se o país é ilha
Usei só países com registro real de óbitos (80 no total). Os demais têm a mortalidade estimada por modelo, e usá-los aqui seria circular.
* Mundo (80 países, R² 0,43): real 380 vs. previsto 382. O Brasil ficou 1% abaixo do esperado.
* Só emergentes (47 países, R² 0,61): previsto 411. O Brasil ficou 8% abaixo do esperado.
* Só América Latina (15 países, R² 0,13): previsto 355. O Brasil ficou 7% acima do esperado.
Mais detalhes:
* Por que o Brasil "deveria" ter ~382: a população jovem puxa o esperado para baixo (−120 frente a um país médio da amostra). A desigualdade alta (+76), a renda menor (+62) e a obesidade (+31) puxam para cima.
* Robustez: mudando a especificação, o Brasil fica entre −5% e +18%. A variável que mais pesa é o Gini: sem ele, o Brasil fica 18% acima do esperado. Em nenhuma especificação o resultado é estatisticamente diferente de zero.
* Dentro da América Latina, o perfil quase não explica as diferenças. Os casos que destoam são Peru (+254) e México (+162), muito acima do esperado, e Costa Rica (−182) e Uruguai (−41), abaixo.
3. Vacinação
Percentual da população com ao menos uma dose:
* 31/mar/21: Brasil 8%. Israel 56%, Chile 35%, EUA 33%, G10 18%, mundo 4,5%.
* 30/jun/21: Brasil 35%. G10 55%, América Latina 31%, mundo 23%.
* 31/dez/21: Brasil 77%. G10 76%, América Latina 72%, mundo 57%.
Outros marcos:
* Início: o Brasil começou em 17/jan/21. O Reino Unido começou em 8/dez/20, os EUA em 14/dez, Chile e México em 24/dez e a Argentina em 29/dez.
* 50% da população com uma dose: o Brasil chegou em 4/ago/21. Isso foi ~7 semanas depois da mediana do G10, ~10 semanas depois de Chile e Uruguai e ~14 semanas antes do mundo.
* 70%: o Brasil chegou em 29/set/21, antes de EUA e Alemanha.
Ou seja, o Brasil começou atrasado e estava bem atrás no pico da onda Gamma, mas depois acelerou mais que a maioria.
4. Cenários: quantas mortes uma vacinação diferente teria evitado?
Modelo semanal: a cobertura vacinal de cada cenário vira proteção contra óbito.
* Efetividade de 65% para quem tem ao menos uma dose, com base em estudos brasileiros da CoronaVac e da AstraZeneca na onda Gamma.
* O efeito aparece 4 semanas depois da dose.
* A vacinação vai do mais velho para o mais novo. Os 15% mais velhos da população concentram ~78% dos óbitos.
* Comparo com os óbitos confirmados.
Resultados (mortes evitadas em 2020–22 | faixa com efetividade de 50% a 80% | mortes excedentes por 100 mil que o Brasil teria):
* Ritmo do país mais avançado em cada semana (Israel, Portugal, Cuba, Singapura, Canadá): ~134 mil, ou 19% dos óbitos | 93–187 mil | ~318, igual ao mundo sem China
* Ritmo da média do G10: ~60 mil | 41–89 mil | ~352
* Doses das ofertas de 2020 (Pfizer + CoronaVac antes): ~58 mil, ou 8% dos óbitos | 39–82 mil | ~353, perto da média dos emergentes
* Só a oferta da Pfizer de ago/2020: ~15 mil | 10–22 mil | ~373
* Ritmo da média da América Latina: ~8 mil mortes a mais | ~384
Notas sobre os cenários:
* O cenário das ofertas de 2020 soma às doses reais as 70 milhões de doses da oferta da Pfizer de ago/2020: 1,5 milhão em dez/20, 3 milhões no 1º tri e 14 milhões no 2º tri. A CoronaVac entra com as mesmas entregas reais do Butantan 8 semanas antes, mas nunca antes da aprovação (17/jan/21). O cenário tem teto de 1 milhão de doses por dia e 2 doses por pessoa.
* A Pfizer sozinha muda pouco porque o grosso das doses viria no 2º semestre, depois do pico. O que mais pesa é antecipar a CoronaVac: a cobertura de idosos dobraria até o fim de março.
* Quase tudo é em 2021. Em 2020 não havia vacina, e em 2022 todos os cenários já estão com 80–90% de cobertura.
* Comparação: Ferreira et al. (Lancet Regional Health Americas, 2022) estimaram ~47 mil mortes de idosos evitáveis com um ritmo mais rápido. O número fica dentro da faixa acima.
5. Limitações
* As mortes excedentes são estimativas. Para países sem registro de óbitos, como Índia e Indonésia, a incerteza é grande.
* A regressão mostra associação, não causalidade. São só ~80 países, e o resultado do Brasil depende de quanto peso se dá à desigualdade.
* Os cenários contam só o efeito direto da vacina em quem foi vacinado, sem a queda de transmissão, então tendem a subestimar.
* Os cenários usam a mesma efetividade para todas as vacinas.
* Com exceção do cenário das ofertas, os cenários não verificam se as doses existiam no mercado mundial.
* Os cenários partem dos óbitos confirmados. As mortes excedentes são ~18% maiores.
Fontes
* Our World in Data: mortes excedentes (The Economist), vacinação e óbitos
* OMS: obesidade em adultos
* Banco Mundial (PIP): Gini
* Ranzani et al., BMJ 2021: efetividade da CoronaVac em idosos
* Fiocruz: efetividade da AstraZeneca em idosos
* Ferreira et al., Lancet Regional Health Americas 2022
* Cronograma das ofertas da Pfizer (Correio Braziliense)
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O Brasil foi mediano na pandemia e aceitar Pfizer em Dez/20 nao faria muita diferença Este é post sobre dados e modelos. Nao vou falar de políticos, mas somente como o país performou na pandemia, comparacao com pares e como teríamos performado em diferentes ritmos de vacinação. Se voce discorda das minhas conclusões, apresente seus próprios dados e discutiremos normalmente. Covid no Brasil vs. pares: mortes excedentes, perfil dos países, vacinação e cenários (dados OWID, 2020–2022) TL;DR * Mortes excedentes 2020–22: o Brasil teve 380 por 100 mil. Isso é 5% abaixo da média da América Latina, 6% acima da média dos emergentes (sem China) e 42% acima do G10. * Ajustando por idade, renda, obesidade e outros fatores: o Brasil teve praticamente as mortes esperadas para o perfil dele (previsto: 382). * Vacinação: começou 3 a 6 semanas depois dos primeiros países. No pico de mortes (mar–jun/21), ficou bem atrás dos países ricos e à frente da média mundial. * Cenários: vacinando no ritmo do país mais avançado do mundo, o modelo estima ~134 mil mortes a menos. No ritmo das doses que as ofertas de 2020 garantiam, ~58 mil a menos. --- 1. Comparação direta Mortes excedentes acumuladas de jan/2020 a dez/2022, por 100 mil habitantes. São as estimativas centrais da The Economist, publicadas pelo Our World in Data. Tirei a China porque a estimativa dela é muito incerta e a grande onda chinesa veio logo depois de dez/2022. * Brasil: 380 * Média América Latina (11 países): 402. O Brasil ficou 5% abaixo. * Média emergentes (24 países): 359. O Brasil ficou 6% acima. * Mundo sem China: 318. O Brasil ficou 19% acima. * Média G10: 267. O Brasil ficou 42% acima. O Brasil fica em 11º entre 24 emergentes e em 7º entre 11 latino-americanos, ordenando da maior para a menor taxa. * Acima do Brasil: Peru (624), México (544), Bolívia (542), Equador (455), Argentina (419) e Paraguai (392). * Abaixo: Colômbia (365), Chile (315), Uruguai (225) e Costa Rica (156). 2. Comparando com países de perfil parecido Comparar taxas brutas mistura países muito diferentes, por exemplo um país jovem e um país velho. Então rodei uma regressão com variáveis estruturais, que já estavam dadas antes de 2020: * obesidade * renda (log do PIB per capita) * % da população com 65+ * diabetes * desigualdade (Gini) * leitos por mil habitantes * se o país é ilha Usei só países com registro real de óbitos (80 no total). Os demais têm a mortalidade estimada por modelo, e usá-los aqui seria circular. * Mundo (80 países, R² 0,43): real 380 vs. previsto 382. O Brasil ficou 1% abaixo do esperado. * Só emergentes (47 países, R² 0,61): previsto 411. O Brasil ficou 8% abaixo do esperado. * Só América Latina (15 países, R² 0,13): previsto 355. O Brasil ficou 7% acima do esperado. Mais detalhes: * Por que o Brasil "deveria" ter ~382: a população jovem puxa o esperado para baixo (−120 frente a um país médio da amostra). A desigualdade alta (+76), a renda menor (+62) e a obesidade (+31) puxam para cima. * Robustez: mudando a especificação, o Brasil fica entre −5% e +18%. A variável que mais pesa é o Gini: sem ele, o Brasil fica 18% acima do esperado. Em nenhuma especificação o resultado é estatisticamente diferente de zero. * Dentro da América Latina, o perfil quase não explica as diferenças. Os casos que destoam são Peru (+254) e México (+162), muito acima do esperado, e Costa Rica (−182) e Uruguai (−41), abaixo. 3. Vacinação Percentual da população com ao menos uma dose: * 31/mar/21: Brasil 8%. Israel 56%, Chile 35%, EUA 33%, G10 18%, mundo 4,5%. * 30/jun/21: Brasil 35%. G10 55%, América Latina 31%, mundo 23%. * 31/dez/21: Brasil 77%. G10 76%, América Latina 72%, mundo 57%. Outros marcos: * Início: o Brasil começou em 17/jan/21. O Reino Unido começou em 8/dez/20, os EUA em 14/dez, Chile e México em 24/dez e a Argentina em 29/dez. * 50% da população com uma dose: o Brasil chegou em 4/ago/21. Isso foi ~7 semanas depois da mediana do G10, ~10 semanas depois de Chile e Uruguai e ~14 semanas antes do mundo. * 70%: o Brasil chegou em 29/set/21, antes de EUA e Alemanha. Ou seja, o Brasil começou atrasado e estava bem atrás no pico da onda Gamma, mas depois acelerou mais que a maioria. 4. Cenários: quantas mortes uma vacinação diferente teria evitado? Modelo semanal: a cobertura vacinal de cada cenário vira proteção contra óbito. * Efetividade de 65% para quem tem ao menos uma dose, com base em estudos brasileiros da CoronaVac e da AstraZeneca na onda Gamma. * O efeito aparece 4 semanas depois da dose. * A vacinação vai do mais velho para o mais novo. Os 15% mais velhos da população concentram ~78% dos óbitos. * Comparo com os óbitos confirmados. Resultados (mortes evitadas em 2020–22 | faixa com efetividade de 50% a 80% | mortes excedentes por 100 mil que o Brasil teria): * Ritmo do país mais avançado em cada semana (Israel, Portugal, Cuba, Singapura, Canadá): ~134 mil, ou 19% dos óbitos | 93–187 mil | ~318, igual ao mundo sem China * Ritmo da média do G10: ~60 mil | 41–89 mil | ~352 * Doses das ofertas de 2020 (Pfizer + CoronaVac antes): ~58 mil, ou 8% dos óbitos | 39–82 mil | ~353, perto da média dos emergentes * Só a oferta da Pfizer de ago/2020: ~15 mil | 10–22 mil | ~373 * Ritmo da média da América Latina: ~8 mil mortes a mais | ~384 Notas sobre os cenários: * O cenário das ofertas de 2020 soma às doses reais as 70 milhões de doses da oferta da Pfizer de ago/2020: 1,5 milhão em dez/20, 3 milhões no 1º tri e 14 milhões no 2º tri. A CoronaVac entra com as mesmas entregas reais do Butantan 8 semanas antes, mas nunca antes da aprovação (17/jan/21). O cenário tem teto de 1 milhão de doses por dia e 2 doses por pessoa. * A Pfizer sozinha muda pouco porque o grosso das doses viria no 2º semestre, depois do pico. O que mais pesa é antecipar a CoronaVac: a cobertura de idosos dobraria até o fim de março. * Quase tudo é em 2021. Em 2020 não havia vacina, e em 2022 todos os cenários já estão com 80–90% de cobertura. * Comparação: Ferreira et al. (Lancet Regional Health Americas, 2022) estimaram ~47 mil mortes de idosos evitáveis com um ritmo mais rápido. O número fica dentro da faixa acima. 5. Limitações * As mortes excedentes são estimativas. Para países sem registro de óbitos, como Índia e Indonésia, a incerteza é grande. * A regressão mostra associação, não causalidade. São só ~80 países, e o resultado do Brasil depende de quanto peso se dá à desigualdade. * Os cenários contam só o efeito direto da vacina em quem foi vacinado, sem a queda de transmissão, então tendem a subestimar. * Os cenários usam a mesma efetividade para todas as vacinas. * Com exceção do cenário das ofertas, os cenários não verificam se as doses existiam no mercado mundial. * Os cenários partem dos óbitos confirmados. As mortes excedentes são ~18% maiores. Fontes * Our World in Data: mortes excedentes (The Economist), vacinação e óbitos * OMS: obesidade em adultos * Banco Mundial (PIP): Gini * Ranzani et al., BMJ 2021: efetividade da CoronaVac em idosos * Fiocruz: efetividade da AstraZeneca em idosos * Ferreira et al., Lancet Regional Health Americas 2022 * Cronograma das ofertas da Pfizer (Correio Braziliense)
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